Jul 3
Academia
Não, não é a academia de ginástica. Fiquei com vontade de discutir alguns aspectos curiosos da vida acadêmica, e acho que isso pode ser terapêutico. Nos últimos dias, tenho vivido esporádicos momentos de crise com as singularidades do sistema acadêmico aqui na tropicália. Todas as vezes que acontece algum grande evento (e falando nisso, o Colóquio “Cinema, Tecnologia e Percepção” foi um sucesso absoluto) eu me ponho a observar e perceber a repetição de certas peculiaridades da academia por aqui. Em primeiro lugar, fico pasmo ao ver como é fácil iludir as pessoas. Basta o sujeito acumular algum capital simbólico, estabelecer um nome, firmar uma “marca” para que seja continuamente incensado. Não importa que não haja nada de novo, original ou efetivamente profundo no que faz. E mesmo que haja, a maioria das pessoas está ali apenas para ver a figura, para saborear algo desse patético fenômeno que é o “stardom” acadêmico (o estrelismo na universidade é um fato deprimente, pois todo intelectual por apenas meia dúzia de gatos pingados). O que importa realmente é essa “marca”. A academia é um domÃnio inteiramente assujeitado aos ditames da moda. É um culto da imagem precisamente no espaço social onde os discursos se dedicam, na maior parte das vezes, a criticar a veneração das imagens na cultura midiática. Relacionada a essa primeira peculiaridade está a segunda, que é a mecânica das citações fáceis dos autores que estão “na moda”. Todas as vezes que alguém cita um desses nomes (e geralmente numa situação em que a referência é mais decorativa do que essencial à economia epistemológica do trabalho) eu sorrio ironicamente para um amigo que também se diverte com tal espetáculo. Temos essa aposta secreta: ficamos esperando para ver quando alguém vai citar o X ou o Y (antes era o Z) e tentamos adivinhar quantas vezes os nomes vão aparecer. Obviamente não há nada de errado em citar autores (é o que fazemos a maior parte do tempo), inclusive os indefectÃveis X e Y. O que é divertido é que são sempre os mesmos autores, e em frases de efeito que, a bem da verdade, não dizem muita coisa de concreto. Nós poderÃamos até dizer que temos uma lista do “In” e “Out” do mundo acadêmico: hoje, o Aganbem é definitivamente “In”, mas o McLuhan está (quase que totalmente) “Out”. Eu sempre sofri, contudo, de uma estranha patologia, que é gostar do que é mais obscuro, esquisito e impopular. Desse modo, eu me delicio citando Max Picard, Fritz Mauthner ou Manuel de Landa (que por aqui são figuras alienÃgenas). Ou então sendo apocalÃptico quando todo o mundo é integrado (e vice-versa). Adoro ser do contra. Eu sei, sou um chato mesmo. Mas eu também tenho minhas qualidades. Desde cedo eu decidi que não iria me render a nenhuma espécie de “estrelismo” histérico que viceja na academia por aqui. Eu sempre evitei, por exemplo, fazer aquele deploravel papel do cara que faz sua palestra e depois vai embora, sem assistir ao trabalho de mais ninguém, por que, afinal, tal e tal congresso (bem como o mundo) só existem para mim. Claro que ninguém tem disposição para acompanhar as atuais maratonas acadêmicas o tempo todo. Mas sempre me esforcei para tentar prestigiar meus colegas na medida do possÃvel, e só costumo me ausentar quanto o cansaço realmente me vence. Outra fonte de diversão é a figura do jovem pesquisador cuja pretensão não cabe na sua pouca idade. É, eu também era assim, confesso. Até o dia em que levei umas saudáveis pancadas verbais de um colega que me serviram para abrir olhos à minha gigantesca ignorância. Eu nunca esqueci isso. Acho saudável a gente ter um choque de realidade de vez em quando. Comigo isso funcionou, mas não acho que eu tenha esse mesmo denodo que meu amigo. Eu vejo o cara mal terminando o doutorado usar frases como “em toda a obra de Nietzsche…” e apenas fico quieto, esperando que alguma outra alma caridosa venha salvar esse(a) jovem - que na maioria das vezes é efetivamente talentoso(a) - do inferno da academia. O inferno da academia (”deixai toda esperança, vós que aqui entrais”) é um lugar muito cruel, pois parece com aquele ParaÃso muçulmano onde as mil virgens ficam o tempo todo te servindo cachos de uva e dizendo como você é gostoso. Entretanto, num dia de extremo desgosto, o sujeito finalmente acorda e vê onde ele realmente está: no limbo dantesco (bom, alguns nunca acordam mesmo). O jovem pesquisador pretensioso é uma espécie de estrela acadêmica em miniatura: ele cita os mesmos autores, ele repete os mesmos chavões, só que com menos elegância e poder de ilusionismo. Eles são produzidos em série, formatados para manter fidelidade cega a seus mestres da palavra. Seus mandamentos são os seguintes: citar (pelo menos duas vezes) os autores da “moda” a partir dos quais seu orientador também foi formatado (se você for da institução X é o Deleuze; se for da Y é o Crary e assim por diante…); escrever um texto “poético” com um bom punhado de frases de efeito e alguns jogos de palavras (com uma dose de literatura e alguns escritores aqui e acolá); procurar, sempre que possÃvel, ser “espiritouso” e “sedutor”; nunca verificar os olhares da platéia de modo a perceber se estão entediados ou efetivamente prestando atenção ao que ele diz - o que importa mesmo é a sua performance; escolher os objetos e temas sancionados pelas correntes majoritárias. Nesses dias, eu percebi, inclusive, que minha ressitência a trabalhar com o comum, com o que é “padrão” não tem mérito algum. Trata-se simplesmente de uma paixão barroca. Sou um patológico colecionador de curiosidades. E não tenho a mÃnima pretensão de achar que minhas coleções tenham alguma utilidade para outra alma além da minha. Mas mesmo assim, nunca deixei de abominar o hermetismo acadêmico. Falo para ser entendido. Meus alunos me entendem (a maior parte do tempo), mesmo quando escolho temas obscuros ou autores exóticos e complexos. É que eu gosto de clareza, e acredito que poesia, cientificidade e objetividade podem andar de mãos dadas. Eu sei que minhas esquisitices devem ser fonte de deboche para muitos, mas o que me salva é que eu mesmo já debocho delas. Aprendi com um querido amigo que “tudo que fazemos é contar estórias”. Essa é sina (e a grandeza, pois não existe nada mais importante que contar estórias) das Ciências Humanas. Eu rio da minha condição patética de intelectual terceiro-mundista e me comprazo nas minhas manias. O cara que não tem senso de humor e que se leva demasiado a sério é um terrorista em potencial, um perigo para a sociedade. Em relação à s jovens estrelinhas da academia, eu poderia repetir alguns dos deliciosos (e disfarçados) sarcasmos de Umberto Eco (outro que está “Out” desde meados dos anos 80): “É certo que não se pode excluir que o candidato [de uma tese ou dissertação] seja um gênio que, com apenas 22 anos tenha compreendido tudo, e é evidente que estou admitindo essa hipótese sem qualquer sombra de ironia. Sabe-se que quando um gênio desses surge na face da terra a humanidade não toma consciência dele de uma hora para a outra; sua obra é lida e digerida durante alguns anos antes que se descubra a sua grandeza. Como pretender que uma banca ocupada em examinar não uma, mas inúmeras teses, se aperceba imediatamente da magnitude desse corredor solitário? ” E para finalizar, voltando aos “estrelões”, aos papas da academia, é evidente que existem lindas e honrosas exceções, gente simples, humilde e silenciosa. Gente cuja grandeza se reflete em seu parcimonioso uso do pronome “eu”. As maiores potências intelectuais que conheci - em minha área e em outras - são assim, pois não sofrem da insegurança que leva alguns a se afirmarem continuamente. Mas não é blague quando digo que ja ouvi de certas eminências frases do gênero “sabe com quem está falando?” ou “eu sou o X”. Em geral são figuras tristes, de depauperada densidade intelectual, mas grande habilidade retórica. Ao mesmo tempo, tenho consciência de que meus conceitos a respeito do que é densidade intelectual não são necessariamente os da maioria das pessoas. Eu admiro os sujeitos que falam de várias coisas, que fazem agenciamentos inesperados, que saltam de um campo e de um objeto para o outro, que se esquivam dos temas fáceis e populares. Sem dúvida, não é isso que a Capes quer que façamos. Afinal, ela consiste, fundamentalmente, num sistema de estrangulamento do pensamento - cujo mecanismo essencial é da ordem da tecnicidade e da performance. Ela valoriza a especialização sobre a generalização, a pesquisa empÃrica sobre a teórica, o quantitativo sobre o qualitativo. Como qualquer boa expressão da Razão, ela é “poder, e o poder não pode querer que nada lhe escape” (disse belamente Victor Gomez PÃn em seu belo Drama de la Ciudad Ideal: el nacimiento de Hegel en Platón). Por mais que seu sistema possua certa lógica, por mais que a compartimentalização do conhecimento possa ter suas justificativas, ela nunca vai conseguir me convencer de que cem investigações empÃricas tenham mais valor que um único ensaio de Walter Benjamin (esse está mais ou menos “In”). Sim, eu também produzo para a Capes, eu também me situo dentro do sistema, mas paralelamente à produção do “lado A” eu cultivo a do “lado B” (como diria minha querida amiga Simone de Sá). Em vez de me opor ao sistema marginalizando-me e abdicando inteiramente das “regras”, eu prefiro corroe-lo por dentro. Minha fantasia é a de que o mundo só funciona a partir de ficções que nós mesmos elaboramos, a da Capes é que existe uma ordem e uma objetividade exteriores à polÃtica, ao imaginário e à subjetividade (mas como são claramente subjetivas as suas avaliações!). Digo “a Capes” de forma impessoal, como se se tratasse de uma máquina. Mas, afinal, somos nós que fazemos essa máquina (ainda que, uma vez constituÃda, ela conquiste certa dose de vida própria), e eu tenho culpa no cartório como todo mundo. A ” Capes” e o “pensamento” pertencem a duas ordens de existência inconciliáveis, assim como a poesia e o tecnicismo. O estrelismo acadêmico, o império do eu, os delÃrios de grandeza que por vezes assolam nossa cena acadêmica têm muito a ver com a formatação de mundo desenhada pela Capes. Ela forma um campo de disputa de capital simbólico (e econômico); capital que, no mais das vezes, não tem relação alguma com a erudição ou com a densidade do pensamento. Mas essas, de qualquer modo, são noções inteiramente fora de moda. A essa altura, vocês poderiam me perguntar: se tenho tantas crises, tantas reclamações, tanto desgosto com o cenário que esbocei, por que continuo insistindo na vida acadêmica? Posso oferecer três respostas: em primeiro lugar porque não sei fazer nenhuma outra coisa e já passei da idade de mudar de profissão; em segundo lugar, porque me diverte imensamente. E em terceiro lugar, porque, com todas as mazelas, ainda se trata de uma vida digna de ser vivida quando se faz acompanhar pela paixão. Escrever, ensinar e aprender só fazem sentido como atos de paixão. Diz o Zielinski: “a pesquisa acadêmica desprovida de paixão pertence ao Hades da academia”. É isso que salva tudo, é isso que justifica tudo: o amor pelo pensamento, o amor por essas coisas inúteis que são a arte, a filosofia e o saber. E todo o resto é literatura, como disse Verlaine com boa literatura.
No commentsJun 26
Como Manter Vivo um Blog?
Eu tenho grande dificuldade em ser constante nas minhas curiosidades. Este blog é uma demonstração disso. Há semanas não o alimento, e o pobre corre o risco de morrer de inanição. Sim, falta tempo, mas não é só isso. Preciso de inspiração para escrever. E ela é rara. Quando ver, geralmente é na forma de um artigo. Contudo, há tempos estou querendo escrever algo diferente, e talvez aqui seja o espaço para isso. Agora, principalmente que já não sou mais representante de nada a não ser de mim mesmo, tenho mais autonomia para dizer o que penso. Isso me dá uma deliciosa sensação de liberdade.
No commentsMay 25
Dracula’s Legacy
Acabo de ler o magnÃfico Dracula’s Legacy (Draculas Vermächtniss), de Kittler, para o paper da Socine 2009. Enquanto isso, leio aos poucos o Vampyrotheutis Infernalis, de Flusser, na beleza da lÃngua em que originalmente foi escrito (não há tradução para outra lÃngua, que o saiba). O segundo é para o Seminário Cinema, Tecnologia e Percepção, em julho. O que une essas leituras é a figura do vampiro. Um, o vampiro-sÃmbolo, o vampiro-entidade cultural; o outro, o vampiro do mar (a criatura cuja manta e habitat lembram o vampiro). No HD, uma dezena de filmes de vampiros para se assistir. O objetivo do livro de Flusser (meta também do trabalho do Seminário): “den Anthropocentrismus zu überwinden und unsere Lebensbedingungen vom Standpunkt des Vampyrotheutis zu betrachten” (”superar o antropocentrismo e considerar nossa condição vital do ponto de vista do Vampyrotheutis”) (p. 15).

May 25
Resumo da Proposta da Socine 2009
A figura do vampiro tem sido explorada pelo cinema desde seus primórdios, numa cadeia ininterrupta de reinterpretações, que leva do Nosferatu, de Murnau, ao Dracula de Coppola. Contudo, para além de qualquer psicanálise do mito ou leitura simbólica, o vampiro pode oferecer também um interessante instrumento para investigar certas percepções culturais a respeito das próprias tecnologias de imagem que o representam. Este trabalho visa à constituição do que se poderia chamar de uma “teoria vampÃrica” do cinema. Segundo Peter Weibel, o vampirismo, como forma de expressão cultural, “significa fantasmização (Phantomisierung), o lidar com fantasmas, com perdas, desaparições, espectros e a estranheza” (unheimlichem) (1996). Em outras palavras, a imagem cultural do vampiro (que, como narra a lenda, não emite reflexão) aponta para um processo de espectralização do mundo, gerado pelas imagens técnicas e pelas incertezas dos grandes avanços tecnológicos pós-Revolução Industrial. Como criatura que não gera reflexão e que entretêm com os espelhos, duplos e fantasmas uma relação Ãntima, o vampiro aparece como figura emblemática da desrealização do cotidiano que vêm afetando progressivamente as sociedades tecnológicas desde pelo menos o século XIX. Nesse sentido, talvez seja uma coincidência interessante e significativa a exploração de sua imagem tipicamente no cinema massivo, marcado precisamente por sua não “reflexividade” (reflexivity), e em oposição, portanto, à produção cinematográfica de cunho crÃtico e “reflexivo” (Stam, 1992). Contudo, como já se advertiu diversas vezes, parece existir uma relação genética entre os seres das trevas e a arte das imagens em movimento: “feito de imagens fixas, de sombras fantasmagóricas dos mortos que são reanimadas através de meios tecnológicos, o filme apresenta significativos paralelos com o vampirismo” (Abbott, 2004: p. 3). E hoje, num cenário cultural em que a multiplicação das mÃdias audiovisuais cria uma verdadeira paisagem midiática (mediascape), o vampiro adquire popularidade inaudita. A partir da década de 80 e, de forma especial, nos últimos anos, a presença dos vampiros nas telas televisivas e cinematográficas só têm aumentado (veja-se o êxito de filmes como Entrevista com o Vampiro, 1994, ou seriados como True Blood, HBO, 2008). Importa notar que as figurações mais recentes do vampirismo parecem apontar para algumas interessantes mutações culturais. Em obras recentes e singularmente estranhas, como The Wisdom of Crocodiles (Inglaterra, Po-Chih Leong, 1998) ou Let the Right One In (Suécia, Tomas Alfredson, 2008), os vampiros adquirem novos e inesperados rostos, freqüentemente mais adaptados à s inquietações e problemáticas tÃpicas da situação pós-moderna. Nesse sentido, pode-se afirmar, com Nina Auerbach, “que existe um vampiro para cada geração”. A partir da análise de algumas dessas obras, o objetivo deste trabalho é desenhar um panorama histórico-cultural das relações do vampiro com o cinema, as representações sociais e as imagens técnicas.
Abbott, Stacey. Celluloid Vampires: Life After Death in the Modern World. Austin: University of Texas Press, 2007.
_________________. “Nosferatu in the Light of New Technlogy”, in Hantke, Steffen (ed.). Horror Film: Creating and Marketing Fear. Jackson: University of Mississipi Press, 2004.
Stam, Robert. Reflexivity in Film and Culture: From Don Quixote to Jean-luc Godard. New York: Columbia University Press, 1992.
Auerbach, Nina. Our Vampires, Ourselves. Chicago: University of Chicago Press, 1997.
Kittler, Friedrich. Draculas Vermächtnis: Technische Schriften. Leipzig: Reclam, 1991.
Perez, Gilberto. The Material Ghost: Films and their Medium. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1998.
Weibel, Peter.“Phantom Malerei - Reed lesen: Malerei zwischen Autopsie und Autoskopie” (online). disponÃvel em <http://thegalleriesatmoore.org/publications/vampirestudy/weiben12.shtml>
No commentsApr 24
Paris
Retornando de duas longas viagens, é hora de atualizar este blog. Começo com algumas imagens. Sempre me disseram que Paris era a cidade mais linda do mundo. Agora acredito.

![coloquio_mail[1].jpg](http://erickfelinto.com/blog/wp-content/uploads/2009/06/coloquio-mail1.jpg)


